Há uns dois ou três anos quando regressava a Portugal vindo de umas pequenas férias em Espanha, trazia no carro, para além da minha mulher, os meus filhos que deviam ter na altura 6 e 8 anos.
Como todos devem saber ou pelo menos imaginar, andar de carro várias horas com crianças desta idade, sobretudo durante o dia, por vezes torna-se complicado. As viagens são cansativas, eles sentados nas cadeirinhas e agarrados aos cintos sentem-se presos, muitas vezes começam a ficar irrequietos e a fazer birras, enfim o filme que todos conhecemos. Para que uma viagem nestas condições corra de forma pacifica e num ambiente de sanidade mental é sempre necessários dar azo à imaginação, cantar, jogar, falar, etc., etc.
Numa de os entreter, na zona da Andaluzia, já com uns 300 km. percorridos, vínhamos a falar das árvores, no caso em questão das oliveiras e da forma como estavam alinhadas e espaçadas entre si, pareciam linhas intermináveis. Expliquei que estavam todas alinhavadas para facilitar a passagem dos tractores e facultar o trabalho na altura da apanha da azeitona.
Passadas que eram uma ou duas horas entrámos em Portugal, por Rosal de La Frontera. Na fronteira fizemos toda a cerimónia da passagem de Espanha para Portugal, parámos o carro, pusemos por brincadeira um pé em Espanha e outro em Portugal e seguimos em direcção a Serpa onde uns amigos nos esperavam para jantar.
Depois dessa paragem e percorridos que eram seis ou sete kilometros logo ouvi uma perspicaz observação do meu filho – "pai, aqui as oliveiras estão todas tortas, o tractor não passa".
A única coisa que disse foi - estas oliveiras são muito antigas e nessa altura ainda não havia tractores.
Ao jantar, com os tais amigos de Serpa puxei o assunto das oliveiras e uma outra pessoa que estava presente, com o seu saber alentejano, logo se apressou a justificar e fê-lo da seguinte forma:
"Sabes? O espanhol tem o seu vizinho como um dos seus melhores amigos, não só porque está próximo, mas porque têm muitos interesses em comum, como também sabem que a melhor pessoa para guardar a sua casa quando não está ninguém é mesmo o vizinho e esta relação que estabelecem entre si cria um enorme espírito de entre ajuda, de colaboração e até um espírito associativo. O português, pelo contrário, vê no vizinho o seu maior inimigo e inveja-o."
Para concluir o seu raciocínio disse - "aqui em Portugal se uma pessoa está a colocar as árvores numa determinada direcção, a outra pessoa do lado, o vizinho, só para tapar o caminho, coloca as ditas a barrar a passagem, por isso…"
O meu filho de que estava a ouvir a conversa de imediato comentou - "assim ninguém ganha! "
Não estou a relatar este episódio só para contar uma história, estou a contar este episódio, não só porque acredito que a união faz a força, mas porque esta semana vi a notícia em que uma empresa, com a qual me empenhei a fundo para fazer uma parceria, ia suspender o seu projecto.
Empenhei-me a fundo nessa parceria, fiz muitos kilometros, investi muitas horas e ainda foi possível fazer uma experiencia de dois meses e meio (Abril, Maio e Junho). Nesse período conseguimos rentabilizar com proveito para ambas as partes os suportes que eles detinham, no final dessa experiência comunicaram-me que estavam a repensar a sua forma de actuar, voltei a insistir no sentido de renovarmos o acordo no final de Julho e em Setembro, até hoje nada.
Tal como tinha acontecido antes da nossa parceria não tiveram nenhuma campanha, agora suspenderam o projecto, não deu para eles, não deu para a New Impact, nem para ambos. São daqueles que não fazem nem deixam fazer, é pena!
É pena, porque infelizmente este comportamento está muito enraizado na nossa cultura e impede-nos de fazer vários acordos, mesmo que sejam com concorrentes directos.
É pena, porque com a inversão desta situação poderíamos rentabilizar custos, criar novos produtos, novos serviços e até plataformas para a internacionalização de empresas portuguesas.
É pena, porque esta é uma das ferramentas que poderia ser facíl de utilizar nas épocas mais difíceis.
É pena, mas nós adultos, continuamos a olhar para o nosso próprio umbigo e a dificultar aquilo que até para as crianças parece simples.
Nota: por razões éticas não menciono o nome da empresa.
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